domingo, 18 de novembro de 2012

Início do processo de leitura e escrita infantil


Em reportagem publicada no mês de Outubro de 2011 na Revista eletrônica Profissão Mestre, a colunista Kelen Trevisan  retratou o quanto crianças em idade escolar (6 e 7 anos de idade) ficam ansiosos por aprender e o quanto isso os torna pressionados no processo de aprendizagem. 


Ansiosos por aprender

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Já dizia a consagrada escritora Clarice Lispector (1920-1977): “A palavra é o meu domínio sobre o mundo”. Quando a criança inicia o processo de leitura e escrita, passa a ampliar sua visão da realidade. Entretanto, algumas vezes, o aluno pode mostrar-se demasiadamente ansioso para ler e escrever, principalmente por pressão dos pais. Atento a esses sinais, os professores podem mudar essa situação e ajudar a desenvolver no educando o gosto pela leitura.
De acordo com Silvia de Mattos Gasparian Colello, pedagoga com mestrado e doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) e docente dessa mesma instituição desde 1982, muitas crianças se sentem pressionadas em torno dos 6 ou 7 anos de idade. “Nesses casos, temos dois lados: o positivo, que é quando essa ansiedade se aproxima da motivação, ou seja, a criança quer ter autonomia para ler os próprios livros, e o lado negativo, em que a ansiedade se aproxima da pressão, isto é, a criança tende a se sentir acuada e isso pode funcionar como um bloqueio”, explica Silvia, que é autora dos livros Alfabetização em questão A escola que (não) ensina a escrever (ambos pela Paz e Terra) e Alfabetização e letramento: pontos e contrapontos(Summus), além de organizadora da obra Textos em contextos – Reflexões sobre o ensino da escrita (Summus).
Pais e professores podem ficar atentos para os primeiros sinais de que a criança está muito ansiosa para aprender a ler e escrever. “Ela pergunta sobre o assunto, demonstra interesse. Por essas perguntas é possível saber se a ansiedade está ligada à motivação”, explica Silvia, que também atua na área de Linguagem e Psicologia da Educação e é coordenadora da área de Psicologia e Educação do programa de pós-graduação da FEUSP e do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização e Letramento (GEAL), onde desenvolve pesquisas na área de Ensino da Língua Escrita.
Para Cristiane Fontanella David Oliveira, professora alfabetizadora do 1º ano do ensino fundamental do Colégio Pentágono – Unidade Perdizes, de São Paulo (SP), é preciso entender, primeiramente, o significado da palavra ansiedade. “Se pensarmos em ansiedade como sinônimo de angústia, aflição, por exemplo, não acredito que ela ocorra, aqui no colégio, durante o processo de aprendizagem da base alfabética.”
Entretanto, a docente ressalta que quando as crianças estão no primeiro ano do ensino fundamental, elas começam a perceber que há outras formas de pensar a leitura e a escrita, havendo um processo de desestabilização de um saber construído para que possam avançar numa hipótese mais elaborada. “O que percebo não considero uma ansiedade, mas uma busca por informações dentro do contexto, ou seja, como usuários da Língua para que possam refletir sobre a mesma”, relata.
A educadora também acredita que esta ansiedade pode ser comparada a uma busca, uma curiosidade, com expectativas que surgem num momento em que esses alunos passam por um período de checagem entre o que sabem e o que ainda precisam saber a respeito do objeto de conhecimento. Nessas situações, as crianças tentam compreender o mundo que as rodeiam pela ação, mesmo quando não dominam, como é o caso do desenvolvimento da linguagem escrita para crianças menores de 7 anos. “Na escola, tal compreensão se dá por meio de estratégias de aprendizagem que consideram o direito ao conhecimento e, ao mesmo tempo, a capacidade, o interesse e o desejo presente no universo infantil.”
Independentemente do grau de ansiedade de cada educando para aprender a ler e escrever, os professores podem adotar algumas medidas para tornar esse momento mais prazeroso, como valorizar o que a criança já sabe e incentivar novas experiências, evitar comparações entre alunos, estimular a cooperação entre as crianças, oferecer oportunidades de reflexão e apresentar atividades lúdicas. “Explorar as situações lúdicas propicia que a criança se solte mais e se arrisque”, aconselha Silvia.
No Colégio Pentágono, diversas atividades e iniciativas fazem parte da realidade dos alunos que estão em processo de alfabetização. Alguns exemplos: leituras compartilhadas, criação do cantinho do leitor (com gêneros diversos), uso da escrita em situações sociais, produções de escritas coletivas, jogos com letras móveis, identificação de palavras e reescritas de textos que as crianças sabem de memória, além de brincadeiras que permitam a criação e reflexão sem a mediação do professor. “São propostas que têm como premissa o respeito aos níveis conceituais das crianças em relação à língua escrita, favorecendo que o conflito seja gerado pela atividade ou pelo jogo, sendo um desafio a ser resolvido pelo aluno”, analisa a professora Cristiane.

Pressão de casa
Existe uma expectativa dos pais para que os filhos correspondam ao que eles acreditam ser possível aprender em algumas fases da vida da criança, como andar, falar, ler, escrever, falar inglês. Segundo Cristiane, as comparações entre o que seus filhos já fazem ou ainda não fazem com as demais crianças são inevitáveis e acontecem, muitas vezes, sem que haja a percepção de que o desenvolvimento é individual. “Para os pais, intrinsecamente, o sucesso dos filhos está ligado ao conhecimento e daí a necessidade de estimulá-los em excesso, desconsiderando talvez o próprio desejo das crianças. Na verdade, penso que essa postura é fruto também de uma sociedade competitiva, com valores e ações diversas que levam a essa influência e marcam alguns comportamentos”, completa.
A professora Laísa Lacher Crês, do 2º ano do ensino fundamental do Colégio São Luís – Jesuítas, de São Paulo (SP), já presenciou esse tipo de situação. “Muitos [pais] não veem a hora de a criança começar a ler e a escrever, como se isso tivesse data e horário para acontecer. Direta ou indiretamente, a criança sente a cobrança e pode acabar também desenvolvendo uma ansiedade que atrapalha o processo de aprendizagem. Crianças gostam de agradar os pais e se veem na obrigação de ler a qualquer custo. Muitas vezes, sofrem diante de qual­quer dúvida ou de qualquer erro”, alerta.
Então, o que fazer quando a pressão vem dos pais da criança? Quais atitudes a escola deve tomar nesses casos? Recomenda-se que a escola oriente os pais sobre a melhor maneira de acompanhar o processo de alfabetização de seus filhos, de reconhecer seus avanços, verificar suas tarefas e incentivar a leitura e a escrita por meio de livros e brinquedos educativos (adequados para a faixa etária). “Em geral, dá tudo certo. A maioria das crianças não tem problemas de desenvolvimento, apenas ritmos de amadurecimento diferentes. Afinal, não é preciso ter tanta ansiedade num processo que deve ser prazeroso”, observa Viviane Verdasca, coordenadora do ensino fundamental I do Colégio São Luís – Jesuítas. A pedagoga Silvia é mais categórica: “O papel dos pais é estimular e promover experiências, brincar juntos. O resto é de responsabilidade da escola, que também tem a função de orientar e acalmar os pais.”

Respeito à individualidade
Outro aspecto relevante, conforme explica Silvia, é que o processo de alfabetização é ou deveria ser uma continuidade das experiências iniciais da criança com a língua escrita. Dessa forma, contar uma história para uma criança de 2 anos já é, de certa forma, parte do processo da alfabetização, porque ela está aprendendo a gostar das atividades que envolvem a língua escrita. Viviane completa informando que, pela individualidade e pelas experiências anteriores, cada criança reage de uma maneira durante o processo de desenvolvimento da leitura e da escrita. “Esse é um momento importante na vida escolar da criança e da família e, como tal, deve ser encarado.”
Portanto, Silvia alerta que é preciso ter cuidado ao estipular uma idade para iniciar o processo de alfabetização sistemático nas escolas. “Eu posso ter crianças de 5 ou 6 anos que estão super preparadas, que vieram de um longo processo desde os 2 anos, que são aquelas que tiveram muitas experiências com os pais e quando chegam nessa idade estão prontas para aprender.” Mas essa realidade não se compara com a de uma criança que vem de um ambiente menos letrado e que não teve esse tipo de oportunidade. “Desta maneira, o perigo de você estabelecer uma idade para iniciar o processo mais sistemático de ensino da escrita é justamente a possibilidade de desconsiderar a realidade dessa criança, que não sabe ao menos para que serve a escrita, em que situação usar, pois ela tem poucas experiências”, avalia.
Mas seja qual for a experiência anterior do aluno, estes precisam perceber a leitura como um ato prazeroso e necessário. Segundo Cristiane, atitudes como gostar de ler e se interessar pela leitura e pelos livros podem ser construídas no espaço familiar e em outras esferas de convivência em que a escrita circula – sobretudo, na escola. “Portanto, não se restringem às capacidades relativas a uma determinada idade. As crianças podem e devem ter acesso aos materiais impressos dos mais variados tipos, seja pelos olhos de um leitor competente ou por si, tentando ‘ler’ ou adivinhar o que está escrito”, avalia. A professora completa: “É nesse sentido que trabalhar numa perspectiva de letramento ganha ainda mais relevância, pois permite às crianças um contato com o mundo da escrita, não apenas como um código a ser decifrado, mas como um universo de possibilidades para interagir socialmente.”
O estímulo ao prazer pela leitura pode começar cedo, como sugere Silvia: “Dê um livrinho para uma criança e peça a ela para contar a história para você. Se ela responder ‘eu não sei ler’, diga ‘leia do seu jeito’. A criança vai se apoiar nas imagens de um livro que ela já conhece ou de partes que ela lembra e vai fazer esse esforço como se ela estivesse lendo. Esse é um processo de alfabetização que pode ser feito com uma criança de 3 anos.”

Fim da reprovação
O Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, no fim do ano passado, uma recomendação que não tem caráter de lei e sugere o fim da reprovação nos três primeiros anos do ensino fundamental, criando o Ciclo de Alfabetização e Letramento. O assunto ainda gera polêmica e divide opiniões. No Colégio São Luís – Jesuítas, o foco do trabalho pedagógico está centrado no avanço progressivo do aluno e qualquer dificuldade diagnosticada recebe intervenção imediata, possibilitando a evolução do aluno no processo de aquisição da leitura e escrita. “A respeito da recomendação do Conselho Nacional de Educação, acreditamos na importância de não segmentar o processo de alfabetização e acompanhar cada uma das crianças de forma personalizada”, avalia Viviane.
Cristiane, ao contrário, não é favorável a esta recomendação. Ela acredita que as questões do processo de aprendizagem não estão nos alunos e no fim da reprovação, mas em outras dimensões que aí, sim, merecem ser revistas e cuidadas, como a formação do educador e o projeto pedagógico da escola. “Quando existe uma parceria nesse sentido, não tem como o aluno não aprender. A escola tem que trazer os instrumentos para que os objetivos sejam alcançados por todos.”
A pedagoga Silvia apoia a medida. “O sentido do ciclo é dar mais tempo para atender a heterogeneidade das crianças, respeitando os seus saberes e despertando motivações. A história da aprendizagem da língua escrita tem um impacto decisivo sobre o modo como a criança vai escrever e se relacionar com o gosto de ler e de escrever”, afirma.



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